Artigo originalmente publicado no blog do Instituto Maurício de Nassau, em 11/08/2009
Desde que Pernambuco foi confirmado como sub-sede da Copa de 2014, venho alertando para o absurdo que é o projeto do governo de construção da chamada Cidade da Copa. Falei na tribuna da Assembleia, escrevi, cobrei respostas. Não fui ouvido. O governo nega-se a entrar no debate e, erroneamente, insiste em manter o projeto do Eduardão, o elefante branco que o governador quer construir em São Lourenço da Mata.
Deixo de lado, por enquanto, as questões políticas, já que, para mim, a questão é de bom senso. Para mostrar isso, nada melhor que os números. Eles expõem claramente como é difícil entender os motivos do governo em insistir num projeto megalomaníaco.
Não é segredo nem novidade que defendo a reforma do estádio do Arruda como a melhor opção. Antes de continuar, afirmo que, primeiro, comemorei e comemoro ainda a escolha de Pernambuco como sub-sede da Copa e, segundo, falo do Arruda porque já existe um projeto pronto e detalhado; caso houvesse um semelhante para a Ilha do Retiro, também o defenderia.
Comparemos, então, o Eduardão com o Arena Coral.
Para a Copa de 2014, o Governo do Estado apresentou a mais cara proposta entre as 12 que foram selecionadas pela FIFA. Um estádio com pouca capacidade de público e um alto custo de execução.
A Arena do Governo representa um custo de R$ 500 milhões, só do estádio, para um público de 45.500 pessoas. A relação custo-espectador é, portanto, de R$ 10.990,00 por espectador.
Isso faz dela a mais cara em valores relativos e a segunda mais cara em valores absolutos, perdendo apenas para a Arena Nacional de Brasília, que está orçada em R$ 580 milhões. No entanto, considerando que o público estimado do Estádio de Brasília é de 70 mil pessoas, a relação custo-espectador fica em R$ 8.285,00 por espectador. Ou seja, o Eduardão é 25% mais caro, em valores relativos.
Apesar de ser o mais caro, o Eduardão será apenas o oitavo em número de espectadores entre os estádios da Copa.
Os números relativos da Arena Coral mostram um custo de R$ 2.770,00 por espectador (sendo R$ 195 milhões para 68.500 espectadores).
O Eduardão é, portanto, 300% mais caro que a Arena Coral, em números relativos, e 163% em números absolutos.
Mesmo que o Estado e o País vivessem atualmente um momento de pleno crescimento, o que não é o caso, as diferenças de custos apontariam cabalmente para o enorme contra-senso de se optar por um projeto mais caro de um estádio menor.
Um outro aspecto, quanto aos custos, que precisa ser observado é o retorno do investimento. Sobretudo quando o governo insiste que o Eduardão será viabilizado através de parceria público privada.
Segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e presidente do Palmeiras, para dar retorno financeiro aos investidores, um estádio que custasse R$ 400 milhões teria que render em torno de R$ 60 milhões por ano.
O Morumbi, estádio que mais arrecadou no país em 2008, teve uma receita bruta abaixo de R$ 20 milhões.
Outro estudo que li sobre os investimentos da Copa, para uma nova arena deste porte ser rentável, seriam necessários 60 jogos por ano, com uma ocupação superior a 60% e ingressos vendidos a R$40,00, algo pouco viável na maioria das cidades brasileiras.
Por estas projeções, o Eduardão mostra-se completamente irrealizável, um verdadeiro elefante branco. É muito pouco provável que qualquer clube de Pernambuco consiga manter um estádio como este.
Outro ponto questionável é que o governo diz que não vai colocar dinheiro público no projeto. No entanto, esta semana, um jornalista fala de um comentário do presidente da CBF que teria confidenciado que o Estado entraria com dinheiro, sim. Desmentindo, portanto, o governo que ainda insiste que só haverá recursos da iniciativa privada.
Termino por aqui estas considerações preliminares. Há muitos outros argumentos. Pretendo analisá-los neste espaço em artigos posteriores.
Deixo, por enquanto, lançada esta proposta de reflexão: diante dos números, o Estado deve ainda insistir na construção do Eduardão?
Com a palavra os leitores e, caso abandone a empáfia, o governo.