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11-02-2010
Os nossos assassinos
Muito já se escreveu sobre o assassinato brutal do estudante Alcides Nascimento. Muito ainda poderia ser escrito. O caso transcende os limites da rotina policial de um estado que infelizmente continua a ostentar altíssimos índices de violência. A morte do rapaz de 22 anos que recentemente se convertera em um exemplo de perseverança e superação é uma tragédia. Expõe a ferida profunda de uma sociedade que se habituou a ler diariamente notícias de assassinatos nos jornais enquanto toma o café da manhã. Mesmo com nomes e sobrenomes das vítimas nas matérias que lemos, mesmo com as fotos chocantes de cadáveres, a morte, em Pernambuco cotidianizou-se e jogou no anonimato suas vítimas. Tornou-se comum ao ponto de quase perdermos a capacidade de nos abismar com a violência. Convertemos o assunto em números e com isso criamos a distância que esconde o rosto do crime. A morte de Alcides subitamente nos expõe à realidade de um estado violento. É quando nos damos conta que estatísticas são argumentos frios. 4.000 mortos em Pernambuco no ano passado foram motivo para comemorações oficiais e anúncios de sucesso de políticas governamentais. A morte de um indivíduo, Alcides, nos restitui a dimensão trágica do que significa quase 400 assassinatos no estado de janeiro até agora. Mas não quero politizar este assunto. Não é humano fazer isso. Quero dizer que há um outro autor deste assassinato se escondendo por trás dos nomes que a polícia divulgou esta semana: o sistema penal brasileiro. Quando uma tragédia como essa acontece, somos pegos de surpresa. A indignação, que nunca deveria desaparecer, ressurge. Queremos os culpados. Queremos justiça. Queremos punição. É quando outro susto nos choca. Um dos assassinos de Alcides é um presidiário que fugiu quando sua pena foi comutada para regime semi-aberto. O sistema que deveria nos proteger, liberta aqueles que vão nos matar. Há algo de muito errado nisso. Há algo de muito estúpido num país onde abundam exemplos de casos como esse e nada é feito para mudar a impunidade com que brindamos os criminosos. Alcides não foi o primeiro e infelizmente não será o último exemplo de uma morte que poderia ser evitada se nossas leis não fossem complacentes com assassinos. De vez em quando surgem tragédias como a de agora que trazem para o centro da discussão a necessidade de uma ampla reforma do nosso sistema penal. Já falei e escrevi outras vezes sobre isso. Como eu, outros também. Mas somos poucos. Este deveria ser um clamor de toda a sociedade. Todos os poderosos e aspirantes a poderosos, todo mundo que de quatro em quatro anos elege esses poderosos, todos nós terminamos por sermos culpados de mortes como a de Alcides. Não se enganem, a omissão diante da impunidade e das leis que premia o crime é o motor que só faz aumentar essa mesma impunidade. Isso termina por nos fazer vítimas de nós mesmos. Já passou da hora de deixarmos de libertar os nossos assassinos.
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